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Gosta de ler poesias? POESIAS MARCANTES |
Nessa pagina
leia muitas poesia bacanas! boa leitura!
Poesias, cantinho
das pequenas grandiosas palavras de pensadores, me refiro a elas, as solitarias poesias que fazem compahia aos que acordam
na noite, e aos que sonham de dia!
»Passei toda a noite, sem dormir
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela, E vendo-a sempre de maneiras
diferentes do que a encontro a ela. Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,E em cada pensamento ela
varia de acordo com a sua semelhança.Amar é pensar. E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. Não sei bem o que
quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. Tenho uma grande distracção animada.Quando desejo encontrá-laQuase que prefiro
não a encontrar,Para não ter que a deixar depois. Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
Alberto Caeiro
»Lisboa
revisitada
(1926) Nada me prende a nada. Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.Anseio com uma angústia de
fome de carne O que não sei que seja -Definidamente pelo indefinido...Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem
dorme irrequieto, metade a sonhar.Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.Correram cortinas de todas as hipóteses
que eu poderia ver da rua.Não há na travessa achada o número da porta que me deram.Acordei para a mesma vida para que tinha
adormecido.Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.Até a vida
só desejada me farta - até essa vida...Compreendo a intervalos desconexos;Escrevo por lapsos de cansaço;E um tédio que é até
do tédio arroja-me à praia.Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;Não sei que ilhas do sul impossível
aguardam-me naufrago;ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa
nenhuma...E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa(E o passado
é uma névoa natural de lágrimas falsas),Nas estradas e atalhos das florestas longínquas Onde supus o meu ser,Fogem desmantelados,
últimos restos Da ilusão final,Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,As minhas cortes por existir, esfaceladas
em Deus. Outra vez te revejo, Cidade da minha infância pavorosamente perdida... Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...Eu?
Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar. E aqui de novo tornei a voltar?Ou somos
todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim
de alguém de fora de mim?Outra vez te revejo, Com o coração mais longínquo, a alma menos minha. Outra vez te revejo - Lisboa
e Tejo e tudo, Transeunte inútil de ti e de mim,Estrangeiro aqui como em toda a parte,Casual na vida como na alma, Fantasma
a errar em salas de recordações, Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem No castelo maldito de ter que viver...Outra vez
te revejo,Sombra que passa através das sombras, e brilha Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,E entra na noite como um
rastro de barco se perde Na água que deixa de se ouvir...Outra vez te revejo,Mas, ai, a mim não me revejo!Partiu-se o espelho
mágico em que me revia idêntico, E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim - Um bocado de ti e de mim!...
Álvaro de Campos
»Segue o teu destino
Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é à sombra De árvores
alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós - próprios.
Suave é viver só. Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além. Mas serenamente, Imita
o Olímpo No teu coração. Os deuses são deuses.
Ricardo Reis
»A GRANDEZA DO SILÊNCIO
O silêncio é doçura: Quando não respondes às ofensas, Quando não reclamas os teus direitos, Quando deixas à Deus a defesa da tua honra.
O silêncio é misericórdia: Quando te calas diante das faltas
de teus irmãos, Quando perdoas sem remoer o passado, Quando não
condenas, mas intercedes em segredo.
O silêncio é paciência: Quando sofres sem te lamentares, Quando não procuras consolação junto aos homens, Quando não intervéns, esperando
que a semente germine lentamente.
O silêncio é humildade: Quando te apagas para deixar aparecer
teu irmão, Quando, na discrição, revelas dons de Deus, Quando suportas que tuas
ações sejam mal interpretadas, Quando deixas os outros a glória da obra inacabada.
O silêncio é fé: Quando te apagas, sabendo que
é Ele quem age... Quando renuncias às vozes do mundo para permanecer na Sua presença... Quando te basta que só Ele te compreenda.
(Desconheço a Autoria)
»AMAR
Amar, para poder viver, Para se
dissipar o sem sentido de se viver por viver.
Amar por quê? Para não adoecer, para que, ao final; possa-se
dizer: Valeu a pena, por que amar é crer. Por que amar?
Para não se entristecer, Para não se perder a alegria de viver.
Amar por quê? Para poder perdoar e esquecer, Para voltar a sorrir, para lutar e vencer.
Por que? Para se conhecer a Deus, nosso primeiro amor,
Nosso maior amor, nosso Grande amor, Acima de todo amor, origem de todo amor, Fim de todo amor, eternidade de amor.
Amar por quê? Para não fenecer, para não murchar, Para não regredir, para não desfalecer. Amar para se
lembrar e também para esquecer.
Por que amar? Para
chorar e sorrir, para plantar e colher.
Amar por quê ? Para caminhar, para se merecer, para
se enternecer. Amar para olhar e conhecer.
Por que amar? Amar para não morrer. Porque os que não amam já morreram, Permaneceram mortos. Perambularam
sem saber como nem por quê.
Amar por quê? Para confiar, para não se entregar, mas
se integrar. Amar porque Deus é amor e isso basta. (Desconheço a Autoria)
DE
FERNANDO PESSOA
Frase mais conhecida: Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.
»As
rosas amo dos jardins de Adônis As rosas amo dos jardins de Adônis, Essas volucres amo, Lídia, rosas, Que em o dia em que
nascem, Em esse dia morrem. A luz para elas é eterna, porque Nascem nascido já o sol, e acabam Antes que Apolo
deixe O seu curso visível. Assim façamos nossa vida um dia, Inscientes, Lídia, voluntariamente Que há noite antes
e após O pouco que duramos.
»O mar jaz; gemem em segredo os ventos O mar jaz;
gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Netuno; E a praia
é alva e cheia de pequenos Brilhos sob o sol claro. Inutilmente parecemos grandes. Nada, no alheio mundo, Nossa
vista grandeza reconhece Ou com razão nos serve. Se aqui de um manso mar meu fundo indício Três ondas o apagam, Que
me fará o mar que na atra praia Ecoa de Saturno?
»A flor que és A flor que és, não a que dás, eu quero, Porque
me negas o que te não peço. Tempo há para negares Depois de teres dado. Flor sê-me flor! Se te colher avaro A
mão da infausta esfinge, tu perene Sombra errarás absurda, Buscando o que não deste.
»No ciclo eterno das mudáveis coisas No ciclo eterno das mudáveis
coisas Novo inverno após novo outono volve À diferente terra Com a mesma maneira. Porém a mim nem me acha diferente Nem
diferente deixa-me, fechado Na clausura maligna Da índole indecisa. Presa da pálida fatalidade De não mudar-me,
me fiel renovo Aos propósitos mudos Morituros e infindos.
»Não só vinho Não só vinho, mas nele o olvido, deito Na taça:
serei ledo, porque a dita É ignara. Quem, lembrando Ou prevendo, sorrira? Dos brutos, não a vida, senão a alma, Consigamos,
pensando; recolhidos No impalpável destino Que não ‘spera nem lembra. Com mão mortal elevo à mortal boca Em
frágil taça o passageiro vinho, Baços os olhos feitos Para deixar de ver.
»Quer pouco: terás tudo Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás
livre. O mesmo amor que tenham Por nós, quer-nos, oprime-nos.
»Temo, Lídia, o destino Temo, Lídia, o destino. Nada é certo. Em
qualquer hora pode suceder-nos O que nos tudo mude. Fora do conhecido é estranho o passo Que próprio damos. Graves
numes guardam As lindas do que é uso. Não somos deuses; cegos, receemos, E a parca dada vida anteponhamos À novidade,
abismo.
DE ÁLVARO DE CAMPOS »Ah, um soneto...
Há mais de meia hora Ah, perante esta única realidade O binômio de Newton
é tão belo Dobrada à moda do Porto
AH, UM SONETO... Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão do mar e que
a vai relembrando pouco a pouco em casa a passear, a passear... No movimento (eu mesmo me desloco nesta cadeira,
só de o imaginar) o mar abandonado fica em foco nos músculos cansados de parar. Há saudades nas pernas e nos braços. Há
saudades no cérebro por fora. Há grandes raivas feitas de cansaços. Mas - esta é boa! - era do coração que eu falava...
e onde diabo estou eu agora com almirante em vez de sensação?...
»Há
mais de meia hora Há mais de meia hora Que estou sentado à secretária Com o único intuito De olhar para ela. (Estes
versos estão fora do meu ritmo. Eu também estou fora do meu ritmo.) Tinteiro grande à frente. Canetas com aparos
novos à frente. Mais para cá papel muito limpo. Ao lado esquerdo um volume da “Enciclopédia Britânica”. Ao
lado direito - Ah, ao lado direito A faca de papel com que ontem Não tive paciência para abrir completamente O
livro que me interessava e não lerei. Quem pudesse sintonizar tudo isto!
»Ah, perante esta única realidade Ah, perante esta única realidade,
que é o mistério, Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade. Perante este horrível ser que é
haver ser. Perante este abismo de existir um abismo, Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, Ser um abismo
por simplesmente ser, Por poder ser, Por haver ser! - Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, Tudo
o que os homens dizem, Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles, Se empequena! Não,
não se empequena... se transforma em outra coisa - Numa só coisa tremenda e negra e impossível. Uma coisa que está para
além dos deuses, de Deus, do Destino - Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino, Aquilo que faz que haja ser
para que possa haver seres, Aquilo que subsiste através de todas as formas, De todas as vidas, abstratas ou concretas, Eternas
ou contingentes, Verdadeiras ou falsas! Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora, Porque quando se abrangeu
tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo, Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer
coisa! Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor, E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência
de mim. Com a substância essencial do meu ser abstrato Que sufoco de incompreensível, Que me esmago de ultratranscendente, E
deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! Cárcere
do Ser, não há libertação de ti? Cárcere de pensar, não há libertação de ti? Ah, não, nenhuma - nem morte, nem vida,
nem Deus! Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos, Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie, Em
sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite. Ah, se afronto
confiado a vida, a incerteza da sorte, Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males, Inconsciente
do mistério de todas as coisas e de todos os gestos, Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte? Ignoro-a?
Mas que é que eu não ignoro? A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo, São mistérios menores
que a Morte? Como, se tudo é o mesmo mistério? E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada. Ah, afronte
eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe! Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, Pois,
por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, Porque é preciso existir para se criar tudo, E existir é ser inconsciente,
porque existir é ser possível haver ser, E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
»O binômio O binômio de Newton é tão belo O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que
há é pouca gente para dar por isso. óóóó---óóóóóó óóó--- óóóóóóó óóóóóóóó (O vento lá fora.)
»DOBRADA À MODA DO PORTO Um dia, num restaurante, fora do espaço
e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que
a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não
comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua. Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não
sei, e foi comigo... (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim Particular ou público, ou do vizinho. Sei
muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje). Sei isso muitas vezes, Mas, se eu pedi amor,
porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria? Não é prato que se possa comer frio. Não me queixei, mas
estava frio, Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
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»Estudo
sobre Fernando Pessoa |
Ao falar
e literatura, ao falar de grandesa humana, em comum vim aquela frase na memoria tudo vale apenas se a alma nao e pequena! Vamos
lembrar aqui quem foi esse grande pensador Fernando Pessoa Às três horas e vinte minutos da tarde de 13 de Junho de
1888 nascia em Lisboa, capital portuguesa, Fernando Pessoa. O parto ocorreu no quarto andar ...
Fernando António Nogueira Pessoa , mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor
português. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa tendo seu valor comparado ao de Camões. O crítico
literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior
parte de sua juventude na África do Sul, a língua inglesa também possui destaque em sua vida, com Pessoa traduzindo, escrevendo,
trabalhando e estudando no idioma. Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente,
na literatura, onde desdobrou-se em várias outras personalidades conhecidas como heterônimos. A figura enigmática em que se
tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia. Morre de
problemas hepáticos aos 47 anos na mesma cidade onde nascera, tendo sua última frase sido escrita na língua inglesa: (Lisboa,
13 de Junho de 1888 Lisboa, 30 de Novembro de 1935) Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa,
foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa tendo seu valor comparado
ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século
XX. Por ter vivido a maior parte de sua juventude na África do Sul, a língua inglesa também possui destaque em sua vida, com
Pessoa traduzindo, escrevendo, trabalhando e estudando no idioma. Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade,
no comércio e, principalmente, na literatura, onde desdobrou-se em várias outras personalidades conhecidas como heterônimos.
A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior
autor da heteronímia. Morre de problemas hepáticos aos 47 anos na mesma cidade onde nascera, tendo sua última frase sido
escrita na língua inglesa: "I know not what tomorrow will bring... ". 1 Biografia 1.1 Juventude em Durban 1.2
Volta definitiva a Portugal e início de carreira 1.3 Legado 1.4 Pessoa e o ocultismo 1.5 Nota autobiográfica 2
Obra poética 2.1 Ortónimo 2.2 Heterónimos 2.2.1 Álvaro de Campos 2.2.2 Ricardo Reis 2.2.3 Alberto Caeiro
3 A ética amoral dos heterónimos 4 Curiosidades 5 Cronologia 6 Referências 6.1 Notas 6.2 Ver também
6.3 Ligações externas Biografia
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem
só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus. >>> Fernando
Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; Escrito entre 1913-15; Publicado em Atena nº 5, Fevereiro de 1925
Juventude em Durban
Largo de São Carlos.Às três horas e vinte minutos da tarde de 13 de Junho de 1888 nascia em Lisboa,
capital portuguesa, Fernando Pessoa. O parto ocorreu no quarto andar esquerdo do nº 4 do Largo de São Carlos, em frente da
ópera de Lisboa (Teatro de São Carlos). O seu pai era funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do «Diário
de Notícias», Joaquim de Seabra Pessoa (38), natural de Lisboa; e a sua mãe D. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa (26),
natural da Ilha Terceira (Açores). Viviam com eles a avó Dionísia, doente mental e duas criadas velhas, Joana e Emília. É
baptizado em 21 de Julho na Igreja dos Mártires, no Chiado. Os padrinhos são a sua Tia Anica (D. Ana Luísa Pinheiro Nogueira,
sua tia materna) e o General Chaby. A justificativa do nome Fernando António encontra-se relacionada a Santo António: a sua
família reclamava uma ligação genealógica Fernando de Bulhões, nome de baptismo de Santo António, cujo dia tradicionalmente
consagrado em Lisboa é 13 de Junho, dia em que Fernando Pessoa nasceu. A sua infância e adolescência foram marcadas por
factos que o influenciariam posteriormente. Às cinco horas da manhã de 24 de Julho, o seu pai morre com 43 anos vítima de
tuberculose. A morte é reportada no Diário de Notícias do dia. Joaquim de Seabra Pessoa deixou a mulher, Pessoa com apenas
cinco anos e o seu irmão Jorge que viria a falecer no outro ano sem chegar a completar um ano. A mãe então vê-se obrigada
a leiloar parte da mobília e mudam-se para uma casa mais modesta, o terceiro andar do n.º 104 da Rua de São Marçal. É também
nesse período que surge o seu primeiro pseudónimo, Chevalier de Pas, facto relatado pelo próprio a Adolfo Casais Monteiro,
numa carta de 13 de Janeiro de 1935 em que fala extensamente sobre a origem dos heterónimos. Ainda no mesmo ano cria seu primeiro
poema, um poema curto com a infantil epígrafe de À Minha Querida Mamã. Sua mãe casa-se pela segunda vez em 1895 por procuração,
na Igreja de São Mamede em Lisboa, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban (África do Sul), o qual
havia conhecido há um ano. Em África, Pessoa viria a demonstrar possuir desde cedo habilidades para a literatura.
O padrasto e a mãe.Em razão do casamento, muda-se com a mãe e um tio-avô, Manuel Gualdino da Cunha,
para Durban, onde passa a maior parte da sua juventude. Viajam no navio Funchal até à Madeira e depois no paquete Inglês Hawarden
Castle até ao Cabo da Boa Esperança. Tendo que dividir a atenção da mãe com os filhos do casamento e com o padrasto, Pessoa
isola-se, o que lhe propiciava momentos de reflexão. Em Durban recebe uma educação britânica, o que lhe proporciona um profundo
contacto com a língua inglesa. Os seus primeiros textos e estudos são feitos em inglês. Mantém contato com a literatura inglesa
através de autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson,
entre outros. O inglês teve grande destaque na sua vida, trabalhando com o idioma quando, mais tarde, se torna correspondente
comercial em Lisboa, além de utilizar o idioma em alguns dos seus textos e traduzir trabalhos de poetas ingleses, como O Corvo
e Annabel Lee de Edgar Allan Poe. Com excepção de Mensagem, os únicos livros publicados em vida são os das colectâneas dos
seus poemas ingleses: Antinous e 35 Sonnets e English Poems I - II e III, escritos entre 1918 e 1921.
Pessoa aos seis anos.Faz o curso primário na escola de freiras irlandesas da West Street, onde
realiza a sua primeira comunhão e percorre em três anos o equivalente a cinco. Em 1899 ingressa na Durban High School, onde
permanecerá durante três anos e será um dos primeiros alunos da turma, no mesmo ano cria o pseudónimo Alexander Search, no
qual envia cartas a si mesmo utilizando esse nome. No ano de 1901 é aprovado com distinção no seu primeiro exame da Cape Scholl
High Examination, escreve os primeiros poemas em inglês. Na mesma época morre sua irmã Madalena Henriqueta, de dois anos.
De férias, parte em 1901 com a família para Portugal. No navio em que viajam, o paquete König, vem o corpo da sua irmã falecida.
Em Lisboa mora com a família em Pedrouços e depois na Avenida de D. Carlos I, n.º. 109, 3º. Esquerdo. Na capital portuguesa
nasce João Maria, quarto filho do segundo casamento da mãe de Pessoa. Viaja com o padrasto, a mãe e os irmãos à Ilha Terceira,
nos Açores, onde vive a família materna. Também partem para Tavira onde para visitar os parentes paternos. Nessa época escreve
a poesia Quando ela passa. Fernando Pessoa permanece em Lisboa enquanto todos regressam para Durban: a mãe, o padrasto,
os irmãos e a criada Paciência que viera com eles. Volta sozinho para a África no vapor Herzog. Na mesma época, tenta escrever
romances em inglês e matricula-se na Commercial School. Lá estuda à noite enquanto de dia se ocupa com disciplinas humanísticas.
Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Na prova de exame para a admissão, não obtém uma boa classificação,
mas tira a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês. Recebe por isso o Queen Victoria Memorial Prize
(«Prémio Rainha Vitória»). Um ano depois novamente ingressa na Durban High School onde frequenta o equivalente a um primeiro
ano universitário, Aprofunda a sua cultura, lendo clássicos ingleses e latinos; escreve poesia e prosa em inglês e surgem
os heterónimos Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher; nasce z sua irmã Maria Clara e publica o jornal do liceu um ensaio crítico
intitulado Macaulay. Por fim, encerra os seus bem sucedidos estudos na África do Sul após realizar na Universidade o «Intermediate
Examination in Arts», adquirindo bons resultados.
Volta definitiva a Portugal e início de carreira
Retratado por João L. RothDeixando a família em Durban, regressou definitivamente à capital portuguesa,
sozinho, em 1905. Passa a viver com a avó Dionísia e as duas tias na Rua da Bela Vista, 17. A mãe e o padrasto também retornam
a Lisboa, durante um período de férias de um ano em que Pessoa volta a morar com eles. Continua a produção de poemas em inglês
e em 1906 matricula-se no Curso Superior de Letras (actual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), que abandona sem
sequer completar o primeiro ano. É nesta época que entra em contacto com importantes escritores de literatura da língua portuguesa.
Interessa-se pela obra de Cesário Verde e pelos sermões do Padre Antônio Vieira. Em Agosto de 1907, morre a sua avó Dionísia,
deixando-lhe uma pequena herança. Com esse dinheiro, monta uma pequena tipografia, que rapidamente faliu, na Rua da Conceição
da Glória, 38-4.º, sob o nome de «Empresa Íbis Tipografia Editora Oficinas a Vapor». A partir de 1908, dedica-se à tradução
de correspondência comercial, um trabalho que poderíamos chamar de "correspondente estrangeiro". Nessa profissão trabalha
a vida toda, tendo uma modesta vida pública. Inicia a sua actividade de ensaista e crítico literário com a publicação,
em 1912, na revista «Águia», do artigo «A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada», a que se seguiriam outros.
Pessoa é internado no dia 29 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, com diagnóstico de "cólica hepática"
(provavelmente uma colangite aguda causada por cálculo biliar), falecendo de suas complicações, possivelmente associada a
uma cirrose hepática provocada pelo óbvio excesso de álcool ao longo da sua vida (a título de curiosidade acredita-se que
era muito fiel à aguardente "Águia Real"). No dia 30 de Novembro morre aos 47 anos. Nos últimos momentos da sua vida pede
os óculos e clama pelos seus heterónimos. A sua última frase é escrita no idioma no qual foi educado, o inglês: I know not
what tomorrow will bring ("Eu não sei o que o amanhã trará").
Legado Podemos dizer que a vida do poeta foi dedicada a criar e que, de tanto criar, criou outras
vidas através de seus heterônimos, o que foi sua principal característica e motivo de interesse por sua pessoa, aparentemente
tão pacata. Alguns críticos questionam se Pessoa realmente teria transparecido seu verdadeiro eu, ou se tudo não tivesse passado
de mais um produto de sua vasta criação. Ao tratar de temas subjetivos e usar a heteronímia[1], Pessoa torna-se enigmático
ao extremo. Esse fato é o que move grande parte das buscas para estudar sua obra. O poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa
declara que Fernando Pessoa foi "o enigma em pessoa"[2]. Escreveu desde sempre, com seu primeiro poema aos sete anos e pondo-se
a escrever até mesmo no leito de morte. Se importava com a intelectualidade do homem, podendo-se dizer que sua vida foi uma
constante divulgação da língua portuguesa que, nas próprias palavras do poeta, ditas pelo heterônimo Bernardo Soares, "minha
pátria é a língua portuguesa". Ou então, através de um poema: Tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar
quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade
Analogamente a Pompeu que disse que "navegar é preciso; viver não é preciso", Pessoa diz, no poema
Navegar é Preciso, que "viver não é necessário; o que é necessário é criar". Outra interpretação comum deste poema diz respeito
ao fato de que a navegação foi resultado de uma atitude racionalista do mundo ocidental (a navegação exigiria precisão) enquanto
a vida poderia dispensar tal precisão. Sobre Fernando Pessoa, o poeta mexicano ganhador do Nobel de Literatura Octavio
Paz diz que "os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia" e que, no caso do poeta português, "nada em sua vida é
surpreendente nada, exceto seus poemas". O crítico literário estadunidense Harold Bloom considerou-o, no seu livro The Western
Canon ("O Cânone Ocidental"), o mais representativo poeta do século XX, ao lado do chileno Pablo Neruda.[3] Na comemoração
do centenário do seu nascimento em 1988, seu corpo foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, confirmando o reconhecimento
que não teve em vida.
Pessoa e o ocultismo Fernando Pessoa possuía ligações com o ocultismo e o misticismo, salientando-se
a Maçonaria e a Rosa-Cruz (embora não se conheça qualquer filiação concreta em Loja ou Fraternidade destas escolas de pensamento),
havendo inclusive defendido publicamente as organizações iniciáticas, no Diário de Lisboa, de 4 de fevereiro de 1935, contra
ataques por parte da ditadura do Estado Novo. O seu poema hermético mais conhecido e apreciado entre os estudantes de esoterismo
intitula-se "No Túmulo de Christian Rosenkreutz". Tinha o hábito de fazer consultas astrológicas para si mesmo (de acordo
com a sua certidão de nascimento, nasceu às 15h20; tinha ascendente Escorpião e o Sol em Gémeos). Realizou mais de mil horóscopos.
Certa vez, lendo uma publicação inglesa do famoso ocultista Aleister Crowley, Fernando encontrou erros no horóscopo e
escreveu ao inglês para corrigi-lo, já que era um conhecedor e praticante da astrologia, conhecimentos estes que impressionaram
Crowley e, como gostava de viagens, o fizeram ir até Portugal para conhecer o poeta. Junto com ele veio a maga alemã Miss
Jaeger que passou a escrever cartas a Fernando assinando com um pseudônimo ocultista. O encontro não foi muito amigável em
via dos desequilíbrios psíquicos e espirituais graves que Crowley tinha e ensinava.
Nota autobiográfica Nota biográfica, escrita por Fernando Pessoa, em 30 de Março de 1935, parcialmente
publicada como introdução ao poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, editado pela Editorial Império em 1940. Sendo
o texto da autoria do próprio Pessoa, deverá notar-se que constitui uma biografia bastante subjectiva e incompleta, feita
de acordo com os desejos e interpretações deste naquele momento de sua vida.
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa. Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia
dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888. Filiação: Filho legítimo
de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa,
combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto
e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e
judeus. Estado: Solteiro. Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente
estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação. Morada: Rua Coelho da Rocha,
16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa). Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se
entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas. Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa,
por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte:
«35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem»,
1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928,
e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso
e talvez que repudiar muito. Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas
núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória
de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos. Ideologia Política:
Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera,
ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora
com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja
de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações
com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria. Posição iniciática: Iniciado,
por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se,
se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez
espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação». Posição social:
Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima. Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre
na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos
- a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania. Lisboa, 30 de Março de 1935 [no original 1933, por aparente lapso]
Obra poética A Wikipédia possui o Portal de literatura {{{Portal2}}} {{{Portal3}}} {{{Portal4}}} {{{Portal5}}}
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega fingir que é dor A dor que deveras sente. >>>
Fernando Pessoa/Bernardo Soares; Autopsicografia; Publicado em 1 de Abril de 1931 Considera-se que a grande criação
estética de Pessoa foi a invenção heteronímica que atravessa toda a sua obra. Os heterônimos, diferentemente dos pseudônimos,
são personalidades poéticas completas: identidades, que, em princípio falsas, tornam-se verdadeiras através de sua manifestação
artística própria e diversa do autor original. Entre os heterônimos, o próprio Fernando Pessoa passou a ser chamado de ortônimo,
já que era a personalidade original. Entretanto, com o amadurecimento de cada uma das outras personalidades, o próprio ortônimo
tornou-se apenas mais um heterônimo entre os outros. Os três heterônimos mais conhecidos (e também aqueles com maior obra
poética) foram Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Um quarto heterônimo de grande importância na obra de Pessoa
é Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego, importante obra literária do século XX. Bernardo é considerado um semi-heterônimo
por ter muitas semelhanças com Fernando Pessoa e não possuir uma personalidade muito característica. Ao contrário dos três,
que possuem até mesmo data de nascimento e morte, com exceção de Ricardo Reis que não possui data de falecimento. Por essa
razão, o português ganhador do Prêmio Nobel José Saramago escreveu o livro O ano da morte de Ricardo Reis. Através dos
heterônimos, Pessoa conduziu uma profunda reflexão sobre a relação entre verdade, existência e identidade. Este último fator,
possui grande notabilidade na famosa misteriosidade do poeta. Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que
pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito? Entre
pseudónimos, heterónimos e semi-heterónimos contam-se 72 nomes[4].
Ortónimo
Estátua de Fernando Pessoa da autoria de Lagoa Henriques, no café A Brasileira, no Chiado, LisboaA
obra ortónima de Pessoa passou por diferentes fases, mas envolve basicamente a procura de um certo patriotismo perdido, através
de uma atitude sebastianista reinventada. O ortônimo foi profundamente influenciado, em vários momentos, por doutrinas religiosas
como a teosofia e sociedades secretas como a Maçonaria. A poesia resultante tem um certo ar mítico, heróico (quase épico,
mas não na acepção original do termo), e por vezes trágico. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com
contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma
forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação
plausível para ter criado os célebres heterónimos - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com
o semi-heterónimo Bernardo Soares. A principal obra de "Pessoa ele-mesmo" é Mensagem, uma colectânea de poemas sobre os
grandes personagens históricos portugueses. O livro foi, também, o único a ser publicado enquanto foi vivo. O ortónimo
é considerado, só por si, como simbolista e modernista pela evanescência, indefinição e insatisfação, e pela inovação praticada
por entre diversas sendas de formulação do discurso poético (sensacionismo, paulismo, interseccionismo, etc.).[5] Afirma-se
como um poeta fingidor por expressar um sensações que não passou e segundo o qual o sentimento nunca nunca se imita, este
processo realiza-se segundo quatro fases: 1º-Sente através dos sentimentos 2º-Intelectualiza os sentimentos (início do fingimento
poético) 3º-Expressa os sentimentos vividos anteriormente(fim do fingimento poético) 4º-É assim vivido um "novo" sentimento
pelo leitor.
Heterónimos Ver artigo principal: Heteronímia. Álvaro de Campos Ver artigo principal:
Álvaro de Campos. Entre todos os heterónimos, Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo de sua
obra. Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer
parte do mundo. Começa sua trajectória como um decadentista (influenciado pelo Simbolismo), mas logo adere ao Futurismo.
Após uma série de desilusões com a existência, assume uma veia niilista, expressa naquele que é considerado um dos poemas
mais conhecidos e influentes da língua portuguesa, Tabacaria.
Ricardo Reis Ver artigo principal: Ricardo Reis. O heterónimo Ricardo Reis é descrito como
sendo um médico que se definia como latinista e monárquico. De certa maneira, simboliza a herança clássica na literatura ocidental,
expressa na simetria, harmonia, um certo bucolismo, com elementos epicuristas e estóicos. O fim inexorável de todos os seres
vivos é uma constante em sua obra, clássica, depurada e disciplinada. Segundo Pessoa, Reis mudou-se para o Brasil em protesto
à proclamação da República em Portugal e não se sabe o ano de sua morte. José Saramago, em O ano da morte de Ricardo Reis
continua, numa perspectiva pessoal, o universo deste heterónimo, após a morte de Fernando Pessoa, cujo fantasma estabelece
um diálogo com o seu heterónimo, sobrevivente ao criador.
Alberto Caeiro Ver artigo principal: Alberto Caeiro. Caeiro, por seu lado, nascido em Lisboa
teria vivido quase toda a vida como camponês, quase sem estudos formais, teve apenas a instrução primária, mas é considerado
o mestre entre os heterônimos (pelo ortônimo, inclusive). Morreram-lhe o pai e a mãe, e ele deixou-se ficar em casa com uma
tia-avó, vivendo de modestos rendimentos. Morreu de tuberculose. Também é conhecido como o poeta-filósofo, mas rejeitava este
título e pregava uma "não-filosofia". Acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se com a metafísica
e qualquer tipo de simbologia para a vida. Dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, Caeiro foi o único a não escrever
em prosa. Alegava que somente a poesia seria capaz de dar conta da realidade. Possuía uma linguagem estética direta, concreta
e simples, mas ainda assim, bastante complexa do ponto de vista reflexivo. Seu ideário resume-se no verso Há metafísica bastante
em não pensar em nada. Sua obra está agrupada na colectânea Poemas Completos de Alberto Caeiro.
A ética amoral dos heterónimos Nas Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, escreve Fernando
Pessoa que «Álvaro de Campos não tem sombra de ética; é amoral, se não positivamente imoral () A ideia da perda da inocência
duma criança de oito anos (Ode II, ad finem) [Ode Triunfal] é-lhe positivamente agradável, pois satisfaz duas sensações muito
fortes a crueldade e a luxúria». Esta postura amoral de Campos, que percorre os seus poemas sensacionistas-futuristas,
é paralela a outras atitudes de semelhante teor presentes nos poemas de Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Vejam-se estes
versos do «mestre» Caeiro, no poema Ontem o pregador de verdades dele: «Haver injustiça é como haver morte. / Eu nunca daria
um passo para alterar / Aquilo a que chamam a injustiça do mundo». Ricardo Reis por seu lado revela-se ainda mais chocante.
Na ode Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia, dois jogadores de xadrez prosseguem a partida mesmo sabendo que a destruição
e a morte campeiam na sua cidade que o inimigo invadiu. E sentencia este heterónimo epicurista: «Quando o rei de marfim está
em perigo / Que importa a carne e o osso / Das irmãs e das mães e das crianças? / Quando a torre não cobre / A retirada da
rainha branca, / O sangue pouco importa». Este aspecto é um daqueles em que é mais notória a influência, ou, pelo menos,
a proximidade, da estética futurista de Marinetti (que, contudo, Pessoa sempre recusou). Ele é também a parcela mais visível
de uma certa falta de solidariedade social e mesmo humana que parece, segundo muitos críticos, ser comum a toda a obra do
poeta. Esta tendência deu argumentos a uma certa corrente de pensamento que classifica Fernando Pessoa como um "autor de direita".
No entanto, outros críticos contra-argumentam que é absurdo tentar classificar um poeta como Pessoa de acordo com critérios
políticos. Segundo os mesmos, Pessoa estava mais interessado numa arte puramente estética, para a qual questões políticas,
sociais ou mesmo morais não eram chamadas. Apresentam também exemplos que desencorajam conclusões simplistas. No final da
sua vida, Pessoa foi autor de textos (e mesmo de poemas) que transpareciam um profundo mal-estar em relação a Salazar e à
recém estabelecida ditadura do Estado Novo. Há também poemas do Pessoa ortónimo imbuídos da tal solidariedade e mesmo moralismo
que a hortonomia parece tendencialmente negar, como "O menino de sua mãe" ou "Tomámos a vila depois de um intenso bombardeamento".
Curiosidades Numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este apareceu,
como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos, pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer
ao encontro. O poeta trabalhava como correspondente comercial, num sistema que hoje denominamos free lancer. Assim, podia
trabalhar dois dias por semana, deixando os demais apenas para dedicar-se à sua grande paixão: a literatura. Cecília Meireles
foi a Portugal, para proferir conferências na Universidade de Coimbra e Universidade de Lisboa, em 1934. Um grande desejo
seu era conhecer o poeta de quem se tinha tornado admiradora. Através de um dos escritórios para o qual trabalhava o poeta,
conseguiu comunicar-se com ele e marcar um encontro. Esse encontro ficou fixado para o meio-dia, mas ela esperou inutilmente
até as duas da tarde, sem que Fernando Pessoa desse o ar de sua presença. Cansada de esperar, Cecília voltou ao hotel e teve
a surpresa de encontrar um exemplar do livro Mensagem e um recado do misterioso poeta, justificando que não comparecera porque
consultara os astros e, segundo seu horóscopo, os dois não eram para se encontrar. Realmente, não se encontraram, nem houve
mais muita oportunidade para isso, já que no ano seguinte Fernando Pessoa faleceu. Pessoa media 1,73 m de altura, de acordo
com o seu Bilhete de Identidade. O assento de óbito de Pessoa indica como causa da morte "bloqueio intestinal". A
Universidade Fernando Pessoa (UFP), com sede em Porto, foi criada em homenagem ao poeta. Fernando Pessoa é o primeiro
português a figurar na Plêiade (Collection Bibliotèque de la Pléiade), prestigiada coleção francesa de grandes nomes da literatura.
Ophélia Queiroz, sua namorada, criou um heterônimo para Fernando Pessoa: Ferdinand Personne. "Ferdinand" é o equivalente
a "Fernando" em alguns idiomas e "Personne" significa "ninguém", sendo um trocadilho pelo fato de Fernando, por criar outras
personalidades, não ter um eu definido. O cantor brasileiro Caetano Veloso possui uma canção chamada "Língua" em que existe
um trecho inspirado em um artigo de Fernando chamado "A minha pátria é a língua portuguesa". O trecho é: A língua é minha
Pátria / E eu não tenho Pátria: tenho mátria / Eu quero frátria. Já o compositor Tom Jobim transformou o poema O Tejo é mais
Belo em música. A cantora Dulce Pontes musicalizou o poema O Infante.Também o grupo Secos e Molhados musicalizou a poesia
Não, não digas nada. O jornal Expresso e a empresa Unisys criaram, em 1987, o Prémio Pessoa, concedido anualmente à pessoa
ou pessoas, de nacionalidade portuguesa, que durante esse período, e na sequência de actividade anterior, se tenha distinguido
como protagonista na vida científica, artística ou literária. Em 2006, a empresa Unicre lançou um cartão de crédito intitulado
"A palavra" que permite ao titular escolher uma de 6 frases de Fernando Pessoa ou seus heterônimos para gravar no cartão.
Cronologia 1888: Em Junho nasce Fernando António Nogueira Pessoa; em Julho ocorre seu baptismo. 1893: Em Janeiro
nasce seu irmão Jorge; o pai morre de tuberculose em 13 de Julho; a família é obrigada a leiloar parte de seus bens. 1894:
No mês de Janeiro, seu irmão Jorge morre; cria seu primeiro heterônimo; João Miguel Rosa é nomeado cônsul interino em Durban,
na África do Sul. 1895: Em Julho escreve seu primeiro poema e João Miguel Rosa parte para Durban; A mãe casa com este
em dezembro por procuração. 1896: Em 7 de Janeiro é concedido o passaporte à mãe e partem para Durban, na África do Sul;
nasce Henriqueta Madalena, irmã do poeta, a 27 de Novembro. 1897: Faz o curso primário em West Street. No mesmo instituto,
faz a primeira comunhão. 1898: Nasce, a 22 de Outubro, sua segunda irmã, Madalena Henriqueta. 1899: Ingressa na Durban
High School em Abril; cria o pseudónimo Alexander Search. 1900: Em Janeiro, nasce o terceiro filho do casal, Luís Miguel;
em Junho, Pessoa passa para a Form III e é premiado em francês. 1901: Em Junho é aprovado no exame da Cape school High
Examination, falece Madalena Henriqueta e começa a escrever as primeiras poesias em inglês; em Agosto, parte com a família
para uma visita a Portugal. 1902: Em Janeiro nasce, em Lisboa, o seu irmão João Maria; vai à ilha Terceira em Maio; em
Junho a família retorna a Durban; em Setembro volta sozinho para Durban. 1903: Submete-se ao exame de admissão à Universidade
do Cabo, tirando a melhor nota no ensaio em inglês e ganhando, assim, o Prémio Rainha Vitória. 1904: Em Agosto nasce sua
irmã Maria Clara e em Dezembro termina seus estudos na África do Sul. 1905: Parte definitivamente para Lisboa, onde passa
a viver com a avó Dionísia. Continua a escrever poemas em inglês. 1906: Matricula-se, em Outubro, no Curso Superior de
Letras. A mãe e o padrasto retornam a Lisboa e Pessoa volta a morar com eles. Falece, em Lisboa, a sua irmã Maria Clara. 1907:
A família retorna mais uma vez a Durban. Pessoa passa a morar com a avó. Desiste do Curso Superior de Letras. Em Agosto a
avó morre. Durante um curto período, estabelece uma tipografia. 1908: Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro
em escritórios comerciais. 1910: Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês. 1912: Pessoa publica na revista
Águia o seu primeiro artigo de crítica literária. Idealiza Ricardo Reis. 1913: Intensa produção literária. Escreve O Marinheiro.
1914: Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de O Guardador de Rebanhos
e também Livro do Desassossego. 1915: Sai em março o primeiro número de Orpheu. Pessoa "mata" Alberto Caeiro. 1916:
Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se. 1918: Pessoa publica poemas em inglês, resenhados com destaque no Times. 1920:
Conhece Ophélia Queiroz. Sua mãe e seus irmãos voltam para Portugal. Em outubro, atravessa uma grande depressão, que o leva
a pensar em internar-se numa casa de saúde. Rompe com Ophélia. 1921: Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1924: Aparece a revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz. 1925: Morre em Lisboa a mãe do poeta, em
17 de Março. 1926: Dirige com seu cunhado a "Revista de Comércio e Contabilidade". Requer patente de uma invenção sua.
1927: Passa a colaborar com a revista "Presença". 1929: Volta a se relacionar com Ophélia. 1931: Rompe novamente
com Ophélia. 1934: Publica Mensagem. 1935: Em 29 de Novembro, é internado com o diagnóstico de cólica hepática. Morre
no dia 30.
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